O álbum Goma-Laca – Afrobrasilidades em 78 rpm (2014) apresenta releituras de temas afrobrasileiros gravados entre 1920 e 1950 em discos de 78 rotações. Aqui,  histórias e caminhos  das chapas que deram origem ao disco:

1) EXU  (Domínio Público)

Correio da Manhã, 15 de março de 1931

Correio da Manhã, 15 de março de 1931

Antigo e poderoso, o “Canto de Echú” foi lançado em janeiro 1931 pelos Filhos de Nagô, com direção de Felippe Nery da Conceição (Parlophon 13254-B). O fonograma integra o 78 rpm “Candomblé”, registro histórico de grande valor etnográfico, um dos primeiros discos comerciais brasileiros cantados em iorubá. Evitando adaptações na letra, ritmo e harmonia, prática muito comum neste período de nascimento da indústria fonográfica, a gravação busca mostrar com fidelidade a musicalidade dos rituais. O mesmo canto também foi documentado em Salvador entre 1941 e 1942 por Jean Melville e Frances Shapiro Herskovits, na gravação “Ketu for Eshu”, e lançado no álbum Afro-Bahian Religious Songs, disponível no acervo da Divisão de Música da Biblioteca do Congresso norte-americano. O motivo Exu Tiriri também aparece em gravação realizada no Terreiro do Gantois na Bahia em 1961 por Salomão Scliar, dentro da série Documentos Folclóricos Brasileiros da Editora Xauã. Em saudação ao orixá do princípio e da transformação, Juçara Marçal abre o disco citando também o canto “Imbarabô” e a banda segue girando o arranjo mântrico.

2) BATUQUE (Domínio Público)

O Pais - 15/09/29

O Pais – 15/09/29

A crítica da chapa, no jornal O País em 1929, revelava a sonoridade de um universo desconhecido: “Batuque” é monumental.Quem o ouve adquire a impressão exata de estar presente, sem que ninguém o veja, às prodigiosas festas íntimas dos negros, verdadeiras reuniões privativas dessa raça nas quais ela passa momentos de completa independência e dá largas à sua natureza meio selvagem. Nessa música temos a África tornada brasileira e revemos os tempos em que o negro nas suas reuniões privadas, às vezes de caráter algo religioso, dava expansão à sua revolta contra a tirania exercida pelo branco.” Lançado em disco em 1929 pela cantora e folclorista pernambucana Stefana de Macedo em arranjo para duo de violões, “Batuque” (Columbia 5.093-A) apontava no selo sua origem no Século XVII: “Dança dos Quilombo dos Palmares”. Enquanto Hercules Gomes faz de seu piano o atabaque ancestral, Russo Passapusso revive o lamento negro e improvisa sobre o canto de resistência e libertação.

3) MINERVINA (Domínio Público)

A toada nordestina registrada pela atriz e cantora Vanja Orico em disco de 1954 (RCA Victor 80.1257-B), integra a trilha sonora do filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, lançado em 1953. A seleção musical do filme apresenta temas do cangaço recolhidos e/ou compostos pelo músico e radialista paraibano Zé do Norte, que também assina canções como “Sodade meu bem, sodade”, “Lua Bonita” e “Mulher Rendeira”. No 78 rpm, as violas do sertão são substituídas por um inusitado órgão elétrico que contrabalança com o singelo acalanto de Vanja. Em 1976, Milton Nascimento gravou no disco Geraes parte do tema de “Minervina” com o título “A Lua Girou”, em adaptação sua do tema popular que já ganhou diversas leituras. <> Karina Buhr resgata a doçura maliciosa da canção, embalada pelo arranjo lunar da flauta de Letieres Leite. Inspirado solo de bateria de Serginho Machado na abertura da faixa desperta e chama pra ver a lua, enquanto no órgão Farfisa Hercules Gomes dá continuidade aos experimentalismos elétricos do disco original.

4) DO PILÁ (Jararaca, Augusto Calheiros e Zé do Bambo)

Acervo Djalma Cândido

Acervo Djalma Cândido

O município de Pilar fica em Maceió, na Alagoas natal de Jararaca e Augusto Calheiros. Lançado em 1938, o rojão nortista “Do Pilá” foi gravado pelo trio vocal de Jararaca, Augusto Calheiros e Zé do Bambo, acompanhados pelo grupo do bandolinista pernambucano Luperce Miranda (Odeon 11.582-A). Além de nos levar às conversas-caminhadas dos cantadores da região, a gravação original também tem forte inspiração pernambucana, talvez pela atuação dos intérpretes em grupos como Turunas Pernambucanos (Jararaca) e Turunas da Mauricéia (Augusto Calheiros e Luperce Miranda). Em 1950, o rojão “Do Pilá” também foi gravada (Continental 16.227-A) pelo Trio Melodia, formado por Nuno Roland, Paulo Tapajós e Albertino Fortuna. Tom Jobim universalizou o tema, incorporando o refrão na sua obra “O Bôto”, lançada em 1976 no disco Urubu. <> Na reinvenção do quinteto com Letieres, Karina Buhr traz na língua o sotaque dos Turunas e sustenta a pisada, cheia de fitas, no caminho do sertão, com momento de brilhante solo de piano de Hercules.

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5) PASSARINHO BATEU AZA (Motivo popular adaptado por Donga e Almirante)

Originalmente, o samba “Passarinho Bateu Asas”, de autoria atribuída a Donga, foi gravado por Francisco Alves em 1928 (Odeon 10160-A). Em 1940, Almirante a identificou como motivo popular e relançou o tema, com novos versos, na chapa “Passarinho Bateu Aza” (Odeon 11875-A). Alguns meses depois, o maestro Leopold Stokowski aportava no Rio de Janeiro em missão etnográfica que anunciava gravar “a mais legítima música brasileira tocada primorosamente por músicos nativos”, em um estúdio montado dentro do navio Uruguai, que rendeu o disco Native Brazilian Music (Columbia). Lançada neste álbum internacional está “Passarinho Bateu Asa”, por Zé da Zilda, com versos semelhantes aos de Francisco Alves: “meu benzinho diga, diga / de tua boca confesse / se já encontrou no mundo / quem tanto amor lhe quisesse”. Versos, aliás, bem mais antigos, identificados em recolhimentos em Sergipe, Rio Grande e Ceará citados por Silvio Romero no livro Cantos Populares do Brasil em 1883 e por Leonardo Mota no livro Cantadores em 1921. <> Em pleno voo musical, Lucas Santanna senta praça no batalhão do amor, vê a morena na roda e canta a versão alada e ligeira de Almirante, acompanhado de piano sabor choro.

6) VOU VENDER MEU BARCO (Valentim dos Santos e Marinho Costa Lima)

Formado pelos gaúchos Alberto Ruschell, Francisco Pacheco, Luiz Bonfá e Luiz Telles, o Quarteto Quitandinha interpretava, principalmente, ritmos rurais típicos, como toadas, aboios e rancheiras. Gravado como “samba-jongo” em 1946, “ Vou vender meu barco” (Continental 15.701-A), tem gosto de canto de tradição popular. A gravação traz também leves ecos da melodia de “Ogum” assinada por Milton Bittencourt e gravada pelo conjunto vocal Quarteto de Bronze em 1945 (Odeon 12566-B), um ano antes dos Quitandinhas. Com o mote “Vou vender meu barco”, a canção também é interpretada pelo cantor de 90 anos da Ilha do Marajó Mestre Laurentino, com alguns versos e trechos diferentes dos Quitandinhas. Tema de praias do Rio Grande do Sul à Ilha do Marajó. <> Aproveitando o mote da canção praieira, Lucas Santtana e o quinteto com Letieres na flauta experimentam arranjo impressionista, navegando sonoridade de mares e tempestades.

7) OGUM (Domínio Público)

Tema de Ogum registrado em disco pelos Filhos de Nagô em 1931, sob direção de Felippe Nery da Conceição, no álbum Candomblé (PARLOPHON 13254-B). Tão impactante que o jornal Correio da Manhã, em nota sobre o lançamento do disco à época, comentava a “selvageria dos batucadores”. Uma adaptação lírica do tema foi gravada em 1948 pela soprano Bidú Sayão e o pianista norteamericano Milne Charnley no disco Folk Songs of Brazil (Columbia), com harmonização de Ernani Braga, como “Ogundê Uarerê”. Canto africano intercontinental, também é encontrado em Cuba em 1957, gravado pelo grupo de Cándido Martinez (“Song for Ogun”), em registros que fazem parte da Biblioteca do Congresso dos EUA. Expressivo tema que nos anos 60 chegou ainda ser interpretado pelo jazzista John Coltrane e em 1973 ganhou versão sublime em adaptação de Dadinho e Mateus Aleluia com o grupo vocal baiano Tincoãs. <> Seguindo o ostinato profundo e a batida forte, Juçara entra arrepiando a nuca e cortando rente. Letieres responde o diálogo com solo elevado de flauta em sol, som clássico e contemporâneo.

8) BABAÔ MILOQUÊ (Josué de Barros)

Batuque gravado pelo violonista e compositor baiano Josué de Barros em 1929 com a Orquestra Victor Brasileira (Victor 33253-A). Originalmente, Josué havia gravado o batuque de inspiração africana com o título “Congo Malabá”. Ainda mais rústica e inventiva, a versão foi reprovada e adaptada para o “Babaô Miloquê”. Sempre de ouvidos atentos a quem fazia coisas novas desencavando passados, o poeta-musicólogo Mário de Andrade descreve a chapa como “uma das grandes vitórias da discografia nacional”. Em 1977, cantando a “Patuscada de Gandhi”, do afoxé Filhos de Gandhy, Gilberto Gil em seu disco Refavela revive elementos que inspiraram Josué de Barros – de “Ô Mamá Maimô, Babá / Babaô Miloquê, Jocô” para “Ê Mori Moriô, Babá / Babaô Quiloxê, Jocô”. <> No rastro daquela música “admirável como caráter, tradição, invenção e riqueza de combinação instrumental”, Russo Passapusso explora a vibração da voz e das peles percutidas por Gabi Guedes e tranquilamente todos vão aonde a música pede.

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Manuscrito de Mário de Andrade no rótulo do disco. Acervo IEB/USP – Fundo Mário de Andrade.

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Manuscrito de Mário de Andrade no rótulo de Congo Malabá, versão reprovada do Babaô Miloquê                       Acervo IEB/USP – Fundo Mário de Andrade

 

9) GURIATÃ (Domínio Público)

Cantiga do Norte do Brasil, registrada em 1930 por Ratinho (Severino Rangel) com os Batutas do Norte (Odeon 10656-A). Em 1933, a soprano e pesquisadora brasileira Elsie Houston gravou, na França, um arranjo próprio para o coco “Juriatan – Paroles et musique du folklore” (Gramophone Company), acompanhada por Carlitos e sua Orquestra Brasileira. Dois anos depois, Heitor Villa-Lobos indica a composição como um tema sertanejo tradicional recolhido por Ratinho na partitura manuscrita de “Pássaro Fugitivo”, gravada com a soprano alemã Beate Rosenkreutzer e o próprio Villa ao piano em 1936. Em sua conferência literária Música de feitiçaria no Brasil, Mário de Andrade reforça o aspecto de canção de inspiração popular e aponta no “Guriatã de Coqueiro” “fiapos” de linha da entidade “Mestre Carlos”, do catimbó: “essa melodia está mesmo tão vulgarizada no Nordeste que algumas das suas frases se tornaram verdadeiras frases-feitas da melódica nordestina”. <> Na nova versão do tema que Mário chama de “um dos mais bonitos discos populares que possuímos”, Karina Buhr veste a alfaia e canta o passarinho remedador e suas inspirações afroindígenas.

manuscrito de Mário de Andrade no encarte do disco - Acervo IEB/USP - Fundo Mário de Andrade

Manuscrito de Mário de Andrade no encarte do disco – Acervo IEB/USP – Fundo Mário de Andrade

10) NÃO TENHO MEDO NÃO (Almirante e Chico Catolé)

As emboladas eram especialidade de Almirante desde o início de sua carreira musical, quando cantava com o Bando de Tangarás, ao lado de Noel Rosa, João de Barro, Henrique Brito e Alvinho. Em 1936, Almirante gravou “Não tenho medo não”, uma parceria com Chico Catolé, acompanhado pelo Regional de Benedito Lacerda (Victor 34045). Com letra de autoafirmação bem humorada, Almirante esbanja gírias da urbanidade carioca, e, de navalha na mão, desafia até Lampião com seu vocabulário afiado na língua da malandragem. Causo urbano em primeira pessoa, brigas contra as arrelias, sem medo de valentão, bem armado de palavras. <> Captando o protorap imbuído no ritmo da fala e velocidade dos versos da embolada, Lucas calmo e sem medo se joga na rinha, enquanto a banda se complementa e se responde sob a regência de Letieres, com direito a final de susto, atenção.

11) CALA BOCA MENINO (Tema de capoeira da Bahia adaptado por Dorival Caymmi)

“Minha não é, mas eu assumo!”, respondeu Dorival Caymmi à pergunta de João Donato sobre quem era o autor da canção que estava gravando. Durante a gravação do disco “Quem é Quem”, em 1973, Nana Caymmi cantarolou brincando uma canção de seu pai, inspirada em tema de capoeira, que acabou entrando no disco: Cala a boca Menino.  Já quase quatro décadas antes, Almirante contava na Rádio Nacional que tratava-se de um tema tradicional de capoeira, com o nhem-nhem-nhem imitando o choro de criança. Na edição de 20 de junho de 1938 do programa Curiosidades Musicais, sobre manifestações do folclore brasileiro, Almirante levou ao estúdio, pela primeira vez na história do Rádio, o berimbau, “rudimentar e bárbaro instrumento afro-brasileiro”. Até 1940, a prática de capoeira era considerada crime por vadiagem pelo Decreto 487 (“Dos Vadios e Capoeiras”), de 11 de outubro de 1890. No programa, o radialista cantava e comentava cantigas e histórias da capoeira da Bahia, acompanhado pelos berimbaus dos capoeiras baianos Geraldo Conceição e Valter Vasconcelos (foto). <> Letieres Leite incorpora o balanço pós-Donato com Hercules no Fender Rhodes para o eletrizante encontro de Juçara Marçal e Russo Passapusso pela primeira vez dividindo o microfone, de bom motivo e paraquedas na citação.

Capa do disco Candomblé, dos Filhos de Nagô - Acervo IEB/USP - Fundo Mário de Andrade

Capa do disco Candomblé, dos Filhos de Nagô – Acervo IEB/USP – Fundo Mário de Andrade