Em 2011, o projeto Goma-Laca Vol.I voltou-se ao acervo da Discoteca Oneyda Alvarenga, criada por Mário de Andrade em 1935, e desenvolveu em parceria com o Centro Cultural São Paulo um show e programa de rádio em torno da história do acervo e a música de origem africana registrada em discos brasileiros de 78 rotações. Sob direção musical de Thiago França, o grupo instrumental Sambanzo recebeu Emicida, Juçara Marçal, Marcelo Pretto, Luisa Maita, Bruno Morais e Rodrigo Brandão para recontextualizar a produção musical brasileira dos tempos do gramofone a partir dos discos de 78 rotações disponíveis na Discoteca Oneyda do Centro Cultural São Paulo.

 

Entrevista concedida a Ramiro Zwetsch, no site Radiola Urbana.

 

Talvez você ainda não tenha ouvido falar, mas amanhã vai acontecer um dos melhores shows brasileiros de 2011. O quinteto Sambanzo — liderado pelo saxofonista Thiago França — recebe convidados para interpretar um repertório todo tirado de uma profunda pesquisa dos jornalistas Ronaldo Evangelista e Biancamaria Binazzi no acervo de discos 78 rotações da Discoteca Oneyda de Alvarenga, do Centro Cultural São Paulo. Coisa fina, pode acreditar. É o projeto Goma-Laca. Na correria, o Ronaldo Evangelista respondeu algumas perguntas básicas e esclarecedoras por email. Segue a íntegra da ideia, com o reforço de algumas pérolas encontradas em áudio, e fica a dica — é amanhã, no Centro Cultural São Paulo, de graça, às 19h, serviço completo AQUI.

Como surgiu esse projeto?
O Goma-Laca nasceu de uma vontade minha e de Biancamaria Binazzi de escutar de uma maneira nova a música brasileira feita na primeira metade do século passado. Esse universo da música brasileira em 78 rotações é muito mais rico do que podemos supor, e no entanto ele quase sempre é percebido e citado sob os mesmos pontos de vista, com as mesmas influências. Buscando mais as modernidades ainda insuperadas do que as influências já assimiladas, criamos essa ideia como um centro de descobertas em 78, proposta de olhares, enfoques e recortes possíveis em programas de rádio, audições, shows. O grande desafio é efetivamente encontrar as faixas para ouvir, já que a enorme maioria não foi jamais sequer relançada em vinil (quem dirá CD e mp3) e não existem muito acervos deste repertório pelo Brasil. Em São Paulo, de longe o mais importante é o da Discoteca Pública no Centro Cultural São Paulo. Não só pela maravilhosa coleção de discos, mas também por sua história e vocação desde sempre de oferecer embasamento histórico e encorajar novos formatos. Quando Mário de Andrade criou a Discoteca Pública, em 1935, tinha intenção de vê-la transformada em uma “rádio-escola”. Em fins da década de 30, a primeira diretora da Discoteca, amiga de Mário, Oneyda Alvarenga, realizava “concertos de discos” abertos ao público. Pensamentos modernistas de inclusão pré-digital, que ecoam até hoje e inspiram o pensamento de que a música deve circular e seguir cumprindo seu papel de ser ouvida e invadir a vida das pessoas.

Por que “goma-laca”?
Nos deparamos com o termo em livros do Tinhorão (“Os Sons Que Vem da Rua”) e do Ruy Castro (“Carmen”), descrevendo o material de que eram feitos os primeiros 78s no começo do século passado: uma mistura de goma-laca com barita ou cera de carnaúba. Além de sonoro e visual, o nome conquistou por definir bem conceitualmente o universo que nos propusemos a olhar – assim como chamamos os discos feitos em vinilite de “vinis”.

Quais foram as principais descobertas neste acervo de 78 rotações?
A Discoteca tem cerca de 15 mil discos de 78 rotações de música brasileira, o que significa algo como 30 mil músicas. Ou seja: muita coisa. Grande parte dos 78s vem da coleção do radialista e sonoplasta Salatiel Coelho, que tinha um olhar atento para coisas menos óbvias e compilou lançamentos interessantíssimos, entre clássicos quase esquecidos e pérolas misteriosas. Partindo de certas ideias, vasculhamos compositores, intérpretes, gravadoras e instrumentistas, por gravadoras, anos e gêneros, buscando compreender certas histórias, sentidos e contextos perdidos no tempo.
Entre muitas coisas emocionantes, ouvimos a sublime primeira gravação solo de Caymmi, em 1939, “Promessa de pescador”; um poderoso canto de trabalho gravado por Inezita Barroso em 1954, “Soca pilão”; inacreditáveis cantos em Iorubá do obscuro Jorge da Silva e Seu Terreiro, como “Man feri man” de 56; a genial “Macumba-ê”, dos desconhecidos Zé Fechado; Albertina em 54; alguns dos primeiros temas gravados do maestro Moacir Santos, como “Anfíbio” em 1949; a recifense Stefana de Macedo, com seu violão nos anos 30 tocando canção de quilombo; as primeiras composições gravadas (com “efeitos especiais”) de Pedro Santos, no início da década de 50; o incrível conjunto vocal Grupo X, paulistano do Bixiga na década de 30; raríssimo registro do violinista mineiro Flausino Vale e inúmeras preciosidades de J.B. de Carvalho, Bidú Sayão, Olga Praguer Coelho, Moreira da Silva, Trio de Ouro, Anjos do Inferno, Sussú, Lia Salgado, incontáveis nomes.

Por que o Sambanzo para interpretar esse repertório?
Quando resolvemos fazer esse Volume I, de saída decidimos que um primeiro foco de interesse era a variedade rítmica e a riqueza daquele repertório além de sambas e marchinhas. Claro que ouvimos todas as Aracys de Almeida e Almirantes que pudemos encontrar, mas nos concentramos especialmente em caçar pontos de macumba estilizados, cantos de trabalho adapatados, citações africanas na música pop das primeiras décadas do século XX. Também logo percebemos que uma das possibilidades mais interessantes era investigar a contemporaneidade das músicas: não um trabalho meramente de tributo museológico, mas sim de recontextos.
Nomes como Thiago França e Kiko Dinucci eram perfeitos para essa abordagem, e o Sambanzo em si tem desenvolvido um trabalho impressionante entre jazz, afrobeat, música brasileira, latina, criação espontânea e coletiva. Tudo fez sentido. A conexão foi tanta que cheguei a encontrar uma versão incrível de 1954 pelo J.B. de Carvalho da própria música que abre o álbum do Sambanzo (e que aparece no “Canta Canta Minha Gente” do Martinho), “O sino da igrejinha”, só que chamada de “Tranca-rua”. Daí tudo se desenvolveu: Luisa Maita cantando versão groove lento de Trio de Ouro, Emicida fazendo Moreira da Silva no seu flow, Bruno Morais latinizando Aracy, Marcelo Pretto reinventando a primeira música gravada, Rodrigo Brandão cruzando Ary Barroso e Gil Scott-Heron, Juçara Marçal hipnotizando no canto afro.

(Por Ramiro Zwetsch)

 

Ficha Técnica:

Goma Laca Vol.I:  Sambanzo e convidados no Centro Cultural São Paulo

Concepção e Pesquisa: Biancamaria Binazzi e Ronaldo Evangelista

Direção Artística: Ronaldo Evangelista

Direção Musical: Thiago França

Produção: Fernanda Shidomi

Músicos convidados: Juçara Marçal, Emicida, Rodrigo Brandão, Luisa Maita, Marcelo Pretto e Bruno Morais.

Sambanzo: Thiago França, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Pimpa e Samba Sam.

Programas de rádio: Biancamaria Binazzi

Vídeos de divulgação: Laboratório de Radio e TV do Centro Cultural São Paulo / Eugênio Vieira

Flyer de divulgação: Janaína Pinho e Henry Cage

Crédito das Fotos: Fernando Eduardo

Acervo: Discoteca Oneyda Alvarenga